Como bem disse Demi Moore, a cena de Harvey, personagem vivido -ao máximo- por Dennis Quaid, comendo camarão é, de longe, a cena mais violenta do filme. A película conduzida por Coralie Fargeat é viceral. Em cada close da fotografia, com cada som atenuado, cada ruído presente, sente-se a violência. Coralie Fargeat é capaz de criar um mundo ficcional que se relaciona assustadoramente com o que observamos dia a dia nas telas do nosso mundo. Com cores vibrantes, o mundo de The Substance salta aos olhos. Elizabeth Sparkle se impõe essa violência, que demanda uma frieza da mais absoluta ordem. Quase que sem hesitar, a personagem busca ser o corpo ideal. Corpo esse, determinado por um charuto ambulante batizado Harvey. Elizabeth se permite perder o controle de si própria pra encontrar os padrões estabelecidos por uma indústria masculina. Demi Moore é capaz de colocar cada uma dessas nuances em tela. Demi Moore nos permite ver o calor escondido pela frieza de Elizabeth. Demi Moore é essencial. Salta aos olhos, também, Margaret Qualley. Sue se passa como uma ótima ideia em seus primeiros dias de vida. Claro, o egoísmo presente na busca pela perfeição a transforma em uma figura detestável. É esse egoísmo de Sue que nos leva aos 20 minutos finais de The Substance. Depois de sugar Elizabeth por completo e causar sua morte, Sue as transforma em uma figura desfigurada. Aqui a inspiração em A Mosca, de Cronemberg, é inegável. Mora nesses 20 minutos meu maior descontentamento com A Substância. Aqui, Coralie parece perder o controle de sua montagem metódica. Aqui, Elizabeth e Sue são reduzidas a uma explosiva massa orgânica. E haja sangue.

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